
O Decreto que Ninguém Ousava Desobedecer
Sifrá e Puá foram convocadas ao palácio. Imagine a cena o Faraó homem mais poderoso do mundo; olhou nos olhos delas e deu uma ordem direta , privada, sem testemunhas. A ordem era matar bebês.
Especificamente, os meninos hebreus recém-nascidos. Na mesa do parto, no momento mais sagrado da vida humana, quando o bebê chegasse ao mundo, as parteiras deveriam verificar o sexo e, se fosse menino, acabar com a vida ali mesmo. Genocídio executado pelas mesmas mãos que ajudavam na chegada da vida.
Duas mulheres que ousaram disser não! Sem palavras mas com ações.
O Mundo Delas: Egito, Escravidão e o Medo do Crescimento Hebreu
Para entender o peso do que fizeram, precisamos entrar no mundo em que viviam. Estamos no início do livro de Êxodo séculos após José ter salvado o Egito e o povo hebreu ter se estabelecido na região fértil de Gósen, no nordeste do país.
Um novo Faraó assumiu o trono. O texto bíblico registra que ele não conhecia José , e essa frase carrega todo o peso de uma mudança política radical. Esse rei não tinha lealdade histórica com os hebreus. Enxergava no crescimento explosivo desse povo uma ameaça real ao seu poder.
“Eis que o povo dos filhos de Israel é mais numeroso e mais forte do que nós; aja sabiamente para com ele, para que não se multiplique e, se acontecer alguma guerra, se ajunte também ele aos nossos inimigos.” — Êxodo 1:9-10
A resposta foi a escravidão forçada. Mas quanto mais oprimiam, mais o povo crescia. Então veio o plano mais sombrio: eliminar as gerações futuras na origem, sabe aonde? ainda no parto.
E quem foi convocado para executar esse plano? Não foi um exército. Não os sacerdotes egípcios. As parteiras. Sifrá e Puá eram chefes das parteiras líderes reconhecidas que coordenavam o trabalho de centenas de outras mulheres que assistiam aos partos da enorme população hebreia. O próprio Faraó as convocou pessoalmente, o que mostra que eram figuras de real liderança em sua comunidade.
O Que os Nomes Delas Revelam; e o que o Texto Esconde
Existe um detalhe no texto bíblico que nunca deveria passar despercebido: em nenhum momento do episódio o nome do Faraó é mencionado. O homem mais poderoso da Terra permanece anônimo.
Os nomes que o texto preserva para sempre são os das duas parteiras.
Sifrá — em hebraico, significa “esplêndida” ou “bela”.
Puá — significa “brilhante” ou “aquela que fala”. Uma referência à voz que não se cala diante da injustiça.
Esse recurso literário não é acidental. A narrativa bíblica, ao preservar os nomes delas e apagar o do Faraó, está fazendo uma declaração teológica poderosa: diante de Deus, a obediência a Ele vale mais do que o título do homem que deu a ordem contrária.
Há também outro detalhe fascinante. O livro de Êxodo começa com uma lista de nomes ; os doze filhos de Jacó que desceram ao Egito. Os próximos nomes que aparecem no texto são Sifrá e Puá. Logo depois vem Moisés. Essa sequência não é por acaso: as parteiras são o elo entre os patriarcas e o libertador de Israel.
A Decisão: Simples de Ler, Impossível de Tomar
O texto bíblico é direto e econômico, como costuma ser nas grandes viradas:
“As parteiras, porém, temeram a Deus e não fizeram como o rei do Egito lhes ordenara, antes conservavam os meninos com vida.” — Êxodo 1:17
Uma frase. Uma decisão. Uma consequência que reverberou por gerações.
Mas o que essa frase esconde é o peso real do que significava dizer não ao Faraó. Não havia lei que as protegesse. Muito menos havia um sistema de denúncias ou instância superior a quem recorrer. Não havia movimento organizado que as amparasse.
A desobediência ao Faraó podia simplesmente custar a vida e elas saberiam disso melhor do que ninguém, vivendo em um Egito construído sobre trabalho escravo e poder absoluto.
Por isso estudiosos e teólogos de diversas tradições identificam neste episódio o que pode ser o primeiro registro de desobediência civil da história da humanidade. Antes de qualquer filósofo teorizar sobre resistência à tirania, antes de qualquer movimento organizado, duas mulheres comuns simplesmente se recusaram a obedecer a uma ordem injusta, porque temiam a Deus mais do que ao homem mais poderoso de sua época.
De Volta ao Palácio: O Jogo das Palavras
Quando o Faraó descobriu que os bebês continuavam sobrevivendo, convocou as parteiras novamente. A pergunta era direta e ameaçadora:
“Por que tendes feito isto e guardado os meninos com vida?” Êxodo 1:18
E aqui vemos outra dimensão da inteligência dessas mulheres. Sua resposta foi cirúrgica:
“As mulheres hebreias não são como as egípcias; pois são vigorosas, e já têm dado à luz antes que a parteira chegue a elas.” Êxodo 1:19
Uma resposta que usava o próprio preconceito do Faraó contra ele.
A ideia de que os escravos hebreus eram fisicamente mais robustos era algo que o Faraó havia afirmado antes, no próprio decreto de escravidão. Fosse verdade ou não, a afirmação era irrefutável do ponto de vista dele.
Elas sobreviveram ao confronto. Os bebês continuaram sobrevivendo.
A Recompensa de Deus: Uma Declaração Revolucionária
O encerramento desse episódio contém uma das declarações mais surpreendentes do Antigo Testamento:
“E porque as parteiras temeram a Deus, ele lhes constituiu família.” Êxodo 1:21
A palavra hebraica usada aqui para “família” é a mesma usada quando Deus prometeu a Davi que sua “casa” duraria para sempre em 2 Samuel 7:11. Não é apenas o reconhecimento de um ato corajoso. É Deus estabelecendo Sifrá e Puá como fundadoras de linhagem, com um status que, naquela cultura, era reservado a homens.
A historiadora bíblica Wilda Gafney observa que o ato dessas mulheres gerou uma resistência em cadeia: a coragem delas inspirou a mãe de Moisés, a irmã Miriã, e até a própria filha do Faraó. Uma rebelião silenciosa de mulheres que, juntas, salvaram o homem que salvaria um povo inteiro.
Sem Sifrá e Puá, Não Haveria Moisés
O encadeamento histórico é impossível de ignorar. Sem Sifrá e Puá, os meninos hebreus morrem. A sobrevivência desses meninos, significa que Moisés pode nascer. Moisés vivo significa que há Êxodo. Este leva à revelação no Sinai. Toda essa trajetória que chega até o Novo Testamento depende dessa corrente não se quebrar.
O Que a História Delas Diz Para Você Hoje
Em tempos onde a injustiça muitas vezes se apresenta com o rosto da autoridade, a história de Sifrá e Puá levanta perguntas que não envelhecem:
Quando a obediência exige cumplicidade com o mal, o que fazemos? Que lei é mais alta a do homem ou a de Deus? Quanto de história mudamos com decisões silenciosas, cotidianas, sem audiência?
Sifrá e Puá não fizeram discurso. Não organizaram marcha. Não esperaram condições perfeitas nem aprovação de ninguém. Foram à mesa do parto e, em silêncio, escolheram a vida.
E o mundo nunca mais foi o mesmo.
“Porque as parteiras temeram a Deus, ele lhes constituiu família.” Êxodo 1:21
Próximo episódio da série:
Episódio 2 — Raabe: A Mulher que Leu o Futuro Antes de Todos [inserir link]
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